26 de junho de 2012

Linguística teórica e metodologia do ensino

Rodolfo Ilari (Unicamp)

A linguística é uma ciência teórica e descritiva, e para muitos professores do ensino, compreender profundamente o que é a língua é um problema muito importante, e as ideias que os linguistas foram elaborando em perspectiva teórica acabaram por ter repercussões mais ou menos profundas sobre todas as práticas pedagógicas cuja matéria prima é a linguagem. Assim a contribuição que a linguística aplicada deu ao ensino nos últimos anos é um tema rico e amplo.

Outras práticas que passaram por reformulações conceituais profundas, a partir da linguística, foram a produção de textos, a leitura e a alfabetização. A produção de textos é uma denominação do exercício tradicional da redação escolar, mas abrange vários outros gêneros textuais em que o educando e o educadorpodem trabalhar juntos;

Nessa área, os avanços da linguística textual, trazendo à baila um conjunto denso de questões ligadas aos conceitos de coerência, coesão, interação e gênero, deram evidência a um fato óbvio, que os rituais escolares haviam por assim dizer tornado invisível: na sala de aula, produzir um texto. É muito diferente de trabalhar sentenças: o texto é uma unidade linguística com estrutura própria, e geralmente as pessoas sabem construir textos bastantes eficazes mesmo quando não utilizam a língua padrão. Exemplo disso é a riqueza com que as pessoas mais humildes conseguem contar casos que marcaram sua vida. Por isso é muito importante as consequências na maneira como se "avalia a redação", porque leva a considerar inadequado o método de avaliação mais arraigado na escola, que consiste em "corrigir" e dar nota à redação pela quantidade de erros de gramática e de ortografia, ao mesmo tempo que se desconsideram suas características propriamente textuais

Uma observação feita pelos linguistas mais atentos à linguagem como interação é que todo texto real é sempre uma forma de interlocução ou resposta: falamos, no mais das vezes, reagindo a outra fala. Essa descoberta leva a valorizar uma prática a que os bons professores sempre recorreram espontaneamente na produção de textos: a de preparar a redação por meio de "pesquisas" e discussões prévias sobre o tema a ser tratado.

Por outro lado, uma das grandes preocupações dos alfabetizadores foi com a "prontidão", isto é, eles se preocupavam com a maneira mais eficaz de desenvolver nos alunos das primeiras séries as capacidades motoras necessárias para desenhar corretamente as letras da escrita cursiva.

Durante a década de 80, pesquisas mostraram que o grande salto da alfabetização se dá não quando a criança alcança o estágio da prontidão, mas quando descobre que as letras estão em correspondência com sons. Para a criança, a formulação dessa hipótese, tem o sentido de uma autêntica revelação, e é o grande momento inaugural que abre o caminho para o aprendizado da escrita.

A partir dos anos 1990, aliás, tem sido cada vez mais frequente lançar mão, ao lado do velho conceito de alfabetização, de um novo conceito de conteúdo mais social e antropológico: o de letramento. A palavra letramento, que hoje é de circulação corrente, refere-se não à mera capacidade de representar os sons na escrita, mas sim às formas de inserção na sociedade a que o indivíduo se habilita pelo fato de utilizar de maneira competente a escrita.

Junto com a alfabetização, o ensino da leitura é um dos grandes desafios da escola brasileira, e um dos grandes problemas de política educacional com que se defrontam nossos educadores. E um dos velhos problemas que afetam nosso ensino como um todo, preciso ser resolvido: como a evasão escolar, a má remuneração dos professores a falta de bibliotecas públicas, e também fatores mais específicos, como a enorme desinformação que ainda existe entre nossos professores a respeito da leitura enquanto competência dos falantes.

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