18 de junho de 2012

Quais os objetivos do ensino de língua na escola?


  Marcos Bagno

           
            O ensino da língua portuguesa nos últimos anos vem sendo objeto de muita reflexão teórica e de muitas sugestões praticas, um esforço  para transformar as aulas de português num verdadeiro instrumento de inclusão social, de democratização do saber e de acesso a cidadania plena.

            As pesquisas apesar das diferenças de abordagens, todas elas mostram uma mesma conclusão: o modo tradicional de ensino de língua não atende as reais necessidades do individuo aprendiz  e nem responde as demandas mais amplas da sociedade, no que diz respeito ao domínio da leitura e da escrita e a formação cultural e intelectual dos cidadãos. Sendo assim uma pergunta pertinente vem orientando as novas propostas do ensino de português: Quais os objetivos do ensino de língua na escola?

            As respostas é que as concepções de ensino e as praticas pedagógicas devem acompanhar as transformações da sociedade. A sociedade brasileira dos dias de hoje apresenta características muito diferentes das relações sociais anteriores. Só o aumento da população tem provocado alterações nessas características sociais. Hoje somos mais de 175 milhões de habitantes. Além disso , o Brasil foi durante muitos anos um pais essencialmente rural , onde a  grande maioria da população vivia nas áreas de cultivo agrícola ou em vilarejos e pequenas cidades e hoje 80% população vive nas cidades. Com isso, a escola brasileira que durante muito tempo teve como clientela os filhos das classes altas e medias, se viu obrigada a atender as demandas educacionais de uma população urbana cada vez mais maior e heterogênea. Sendo assim os alunos que frequentavam a escola eram falantes da variedade linguística urbanas, eram filhos de pais que sabiam ler e escrever e tinham acesso a livros e outras fontes de cultura letrada. Com isso muitas perguntas surgiam do tipo: o que fazer com as escolas que abria suas portas para uma população de antecedentes rurais? Para filhos de pais analfabetos, crianças variedades do português brasileiro muito distante daquele modelo de língua “certa” cultivada pelas classes sociais urbanas? Para responder a essas perguntas pesquisadores passaram a investigar as salas de aula de língua portuguesa. Então começaram alevantar vários aspectos problemáticos, verdadeiros obstáculos para um ensino de língua eficiente e relevante socialmente.

            Do que estamos tratando quando nos referimos ao “modo” tradicional de ensino de língua? Na verdade estamos falando de um conjunto de crenças e atitudes. O ensino tradicional sempre procurou “reformar” ou “consertar” a língua do aluno. A pedagogia, por exemplo, tinha como objetivo ensinar um modelo idealizado de língua, um conjunto de regras extremamente padronizadas, ou seja, caracterizado como norma padrão . Assim a pedagogia tradicional, a o invés de criticar o modelo e ajustá-lo a realidade, se esforçava para eliminar da língua dos aprendizes todos os usos diferentes daqueles que vinham codificados na norma padrão. Assim tudo o que era diferente passava a ser classificado de erro.

            O aluno era visto como uma espécie de “deficiente linguístico”, a língua falada pelos alunos principalmente de pais analfabetos ou de antecedentes rurais, era “toda errada”. Os preconceitos vigentes na sociedade brasileira considerava que a língua que aquelas crianças falavam era um português “esteriotipado”, uma “língua de índio”, ou simplesmente “não era português”. Portanto cabia a escola suprir aquela “deficiência”, fazendo o aluno se apoderar da língua “certa”, da língua “bonita”, que só a escola poderia oferecer.

             Com isso não se tratava de uma “língua” no sentido cientifico, mas sim de um ideal de língua de uma abstração, muito distante dos usos linguísticos reais. Esse ideal de língua recebe o nome de norma culta, visando caracterizar para classe elitista, uma vez que se considerava culto “culto”, aquilo que vem de determinadas classes sociais. “Português”, então deixa de ser a língua que todos os brasileiros falam, com suas múltiplas variedades regionais, sociais e estilísticas, e passa a ser um rotulo usado para designar apenas as regras submetidas ao processo de padronização.

             A pedagogia tradicional conscientiza que o primeiro dia de aula de português de uma criança é como se fosse também o primeiro dia de contato dessa criança com a língua, como se não tivesse nenhum conhecimento desta. Isto não tem menor fundamento ,pois todos sabem que crianças entre 6 e 7 anos de idade, já domina completamente a gramatica de sua língua materna, já conhece intuitivamente as regras de funcionamento de sua língua, e que ela foi aprendendo e internalizando em seus primeiros anos de vida no convívio com seus familiares e sua comunidade. A escola tradicional ao invés de aproveitar deste vasto conhecimento prévio que a criança traz para a sala de aula, assume atitude contraria: despreza ao saber linguístico intuitivo, internalizado, e passa agir como se a criança não tivesse nenhuma noção do funcionamento da língua.

            Todas essas crenças e atitudes do ensino tradicional da língua portuguesa  se sustenta numa concepção  ultrapassada de língua, sendo muito antiga, tem mais de dois mil anos de existência, e surgiu no mundo de cultura grega 300 anos antes de Cristo, sendo assim foi criada a própria disciplina chamada gramatica. Os primeiros gramáticos quiseram fixar um modelo de língua “certa”, para isso tiveram de fazer algumas escolhas. Antes de qualquer coisa, trata-se de uma abstração, de um modelo que não tem correspondentes na realidade dos usos da língua. Isso quer dizer que na pratica ninguém fala a norma padrão. Essa impossibilidade de realização concreta  desta norma se deve a um fato muito simples: a norma padra busca homogeneidade e não existe nenhuma língua viva no mundo que seja homogênea. A norma padra tenta criar um comportamento linguístico uniforme, enquanto que a ciência linguística moderna trabalha com a noção heterogeneidade das línguas, diante da constatação de que toda língua é variável, isto é, de que toda e qualquer língua apresenta varias maneiras distintas de dizer a mesma coisa, e que cada uma dessas maneiras diferentes esta relacionada com fatores sociais, culturais, históricos, além de fatores individuais como grau de escolarização, contexto de interação, pressão psicológica, repertorio estilístico etc.

            A norma padra ove como modelo a serem imitados os grandes escritores da língua. Assim a pedagogia tradicional impôs a si mesma um objetivo praticamente inatingível: transformas seus alunos em grandes artistas do idioma, em poetas, romancistas, e dramaturgos. Diante das dificuldades de realizar essa missão, a escola sempre se mostrou extremamente frustrada. A opção pela língua escrita literária se baseia, desde a Antiguidade, numa atitude de desprezo pela língua falada. Comparando, de um lado, uma obra literária, onde a língua aparece bem organizada em frases e parágrafos coerentes, com vocabulário sofisticado, pontuação empregada de maneira eficiente etc. Do outro lado a língua falada, com suas hesitações, repetições, frases interrompidas, suas precisões no uso do vocabulário, os gramáticos antigos chegaram a conclusão totalmente falsa, de que só a língua escrita obedecia as regras, na opinião deles a língua falada era “caótica”, “desorganizada”. Hoje sabemos que a língua falada é tão logica quanto a língua escrita e esta sujeita a tantas regras gramaticais quanta as que aparecem na escrita. Além de que  as regras que vigoram  na escrita tendem a ser mais conservadoras, demoram a acompanhar as transformações  inevitáveis que ocorrem na língua falada.

 Referencia bibliográfica

BAGNO,M (2009). Os objetivos do ensino de língua na escola: uma mudança de foco. São Pulo. Contexto.

COELHO. Ligia Marta (2009). Língua materna nas series iniciais do Ensino Fundamental: de concepções e suas praticas. Petrópolis, RJ: Vozes.

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